Fernando de Noronha tem a maior proporção de carros 100% elétricos por habitante no Brasil: são 78 veículos para 3.364 moradores. A recarga, porém, depende principalmente de uma termelétrica que queima combustível.
O arquipélago registra 2.319 elétricos por 100 mil habitantes, cerca de 15 vezes a média nacional, de 156. A diferença expõe um limite prático da eletrificação: o impacto ambiental dos carros também depende de como a energia é gerada.
Fernando de Noronha lidera carros elétricos por habitante
Fernando de Noronha ocupa o primeiro lugar no ranking proporcional, com 78 carros emplacados entre janeiro de 2022 e setembro de 2026. O cálculo considera o endereço dos proprietários e cruza os registros de veículos com a estimativa populacional do IBGE.
O distrito pernambucano fica a 545 km do Recife. Como a população é pequena, cada veículo tem efeito expressivo no índice. Em Pinhal, no Rio Grande do Sul, por exemplo, cada novo carro acrescenta cerca de 33 pontos por 100 mil habitantes.
| Posição | Localidade | Elétricos por 100 mil habitantes | Unidades |
|---|---|---|---|
| 1º | Fernando de Noronha (PE) | 2.319 | 78 |
| 2º | Eusébio (CE) | 1.070 | 895 |
| 3º | Brasília (DF) | 1.038 | 31.228 |
| 4º | Lauro de Freitas (BA) | 832 | 1.839 |
| 5º | Santana de Parnaíba (SP) | 768 | 1.268 |
| 6º | São Jorge do Patrocínio (PR) | 759 | 51 |
| 7º | Balneário Camboriú (SC) | 697 | 1.077 |
| 8º | Curitiba (PR) | 664 | 12.162 |
| 9º | Pinhal (RS) | 658 | 20 |
| 10º | Cabedelo (PB) | 649 | 463 |
A termelétrica Tubarão abastece a maior parte da ilha
A usina Tubarão tem capacidade de 10 MW e é a principal fonte de eletricidade de Noronha. As usinas solares Noronha I e Noronha II, inauguradas em 2017 e 2018, somam 950 kW e respondiam por aproximadamente 10% do consumo local em 2024.

Foto: Divulgação
Na prática, a maior parte da energia usada para recarregar os carros vem de uma usina térmica a combustível. Isso reduz o benefício climático associado à condução elétrica, embora os veículos não emitam gases pelo escapamento durante o uso.
Uma nova usina solar, anunciada para 2027, deve contar com mais de 30 mil painéis, capacidade de 22 MW e baterias de 49 MWh. O investimento previsto pela Neoenergia é de R$ 350 milhões. O armazenamento pode ajudar a fornecer energia quando a geração solar cair, mas a mudança ainda depende da entrada do projeto em operação.
Proibição de carros a combustão foi adiada para 2029
A lei estadual sancionada em janeiro de 2020 previa barrar a entrada de carros a gasolina, etanol ou diesel a partir de agosto de 2022 e retirar os que já circulavam até 2030. O prazo de entrada foi adiado três vezes e agora está previsto para agosto de 2029.
O programa Noronha Carbono Zero tem como objetivo reduzir as emissões da ilha, onde grande parte do território integra um parque nacional marinho. A medida mira especialmente os bugues alugados por turistas, mas a falta de pontos de recarga e de oferta de veículos, além da fragilidade da economia local, pesou nos adiamentos.
Para facilitar a compra, moradores receberam licenças para trazer carros elétricos sem a troca por um veículo já registrado na ilha. Também houve isenção de IPVA e auxílio no frete marítimo, que custa cerca de R$ 10 mil.
O ranking também revela diferenças de renda e de frota
Em cidades como Eusébio, Lauro de Freitas e Santana de Parnaíba, a proximidade de capitais e a presença de condomínios com garagens facilitam a instalação de carregadores. Brasília também combina renda elevada com isenção de IPVA para elétricos e híbridos.

Foto: BYD/Divulgação
Já São Jorge do Patrocínio entrou no grupo dos dez primeiros com veículos destinados a prefeituras. Os emplacamentos de 13 BYD Dolphin Mini em 2025 e 38 Geely EX2 em 2026 coincidem com entregas da Itaipu ao consórcio Coripa, que reúne municípios da região.
A desigualdade de acesso aparece no restante do país: 1.059 municípios não registraram nenhum carro eletrificado entre 2022 e setembro de 2026. O total inclui híbridos, mas exclui híbridos leves; 2.133 cidades não tiveram nenhum elétrico a bateria.
Para acompanhar como os modelos elétricos avançam no mercado brasileiro, veja também a categoria de carros elétricos.
Na prática, a eletrificação depende também da rede elétrica
Noronha mostra que a quantidade de carros elétricos por habitante não basta para medir o avanço da mobilidade de baixa emissão. A fonte de energia, os carregadores disponíveis e o custo de levar veículos até a ilha também influenciam o resultado.
Com a usina solar prevista para 2027, a ilha poderá reduzir a dependência da geração térmica, desde que o projeto seja concluído e opere conforme planejado. Até lá, a frota elétrica convive com uma matriz ainda majoritariamente movida a combustível.
